23/02/2010 - Menos Irã e mais algodão.
Há grande
disparidade nas avaliações dos oito anos
de diplomacia do governo Lula. Mesmo sem
levar em conta as análises apaixonadas,
corolários de posições de defesa ou de
condenação automática de qualquer ação
do governo - independentemente de suas
virtudes ou seus defeitos.
Entre as análises menos contaminadas por
posições apriorísticas, é possível
distinguir avaliações positivas, em
geral enfatizando os aspectos políticos
da política externa. Reflexo talvez de
encantamento quanto ao protagonismo
exacerbado da diplomacia presidencial e
da constatação de que o Brasil agora tem
mais peso nos foros globais do que antes
de 2003.
Em contraste, há uma corrente
significativa de opinião crítica da
diplomacia lulista, sublinhando a
ausência de resultados concretos,
especialmente no terreno econômico. Os
que privilegiam o ângulo político tendem
a descartar tais críticas
considerando-as "economicistas", isto é,
enfatizando indevidamente objetivos
econômicos em detrimento dos políticos.
E, no entanto, a análise dos fatos
indica que os críticos "economicistas"
estão provavelmente mais próximos de uma
avaliação equilibrada da diplomacia
brasileira recente do que os apologistas
da diplomacia baseada em avanços
essencialmente políticos.
A ausência de resultados substantivos
econômicos decorrentes da ação
diplomática brasileira é reconhecida por
quase todos. O governo tem pouco a
mostrar, a menos da entrada da Venezuela
no Mercosul... Idealmente, os objetivos
políticos permanentes de política
externa deveriam ser respaldados por
diplomacia substantiva no terreno
econômico, para que se assegurasse a
estabilidade dos seus resultados. O que
seria atualmente a aproximação política
entre o Brasil e a Argentina, se não
houvesse o Mercosul?
A ênfase na importância do protagonismo
político seria mais defensável caso
fosse possível assegurar que essa
postura, dependente de diplomacia
presidencial, pudesse ser mantida após
2010. É difícil ver quem poderá
substituir Lula nesse papel. Não é,
certamente, por acaso que o PT desejaria
submeter as decisões de política externa
a um conselho com representatividade
política "adequada". Tudo isso sugere
que o aparelhamento do Itamaraty poderá
ser ainda mais custoso do que pensavam
mesmo os mais pessimistas.
Por outro lado, os resultados da
diplomacia centrada em objetivos
políticos não são satisfatórios.
Parcerias estratégicas na Europa, na
Ásia e na América do Sul, racionalizadas
pelo objetivo de assegurar ao Brasil um
lugar no futuro Conselho de Segurança
expandido das Nações Unidas, parecem a
cada dia menos equilibradas, menos
estratégicas e menos promissoras.
Na América Latina, os últimos meses
marcaram o enfraquecimento de aliados
"estratégicos", com o agravamento dos
previsíveis problemas econômicos tanto
na Argentina quanto na Venezuela. A
derrota da esquerda no Chile impôs
restrição adicional à política exterior
brasileira no continente. A diplomacia
hoteleira do Brasil em Honduras
acarretou desgastes custosos.
No caso da França, o desalinhamento dos
parceiros sobre a política em relação ao
Irã mostra claramente que qualquer ideia
de parceria estratégica com o Brasil é
condicionada pela relação prioritária
entre a França e os Estados Unidos. Dada
a pobreza da agenda econômica positiva
do Brasil em relação à França - bastião
do protecionismo agrícola mundial -,
cresce a desconfiança de que, em vez de
parceria estratégica, se deve ler
simplesmente assimétrico acordo de
cooperação militar e, mesmo assim, com
aspectos extremamente polêmicos.
As relações com a China no terreno
econômico consolidaram a posição do
Brasil como importante supridor de
commodities e de mercado para produtos
manufaturados chineses.
Tentativas de atração de investimentos
chineses no Brasil e de diversificação
do leque de iniciativas de cooperação
científica e tecnológica têm alcançado
resultados modestos. No terreno
político, o Brasil, agora membro
temporário do Conselho de Segurança das
Nações Unidas, juntou-se à China como na
resistência a adotar uma posição dura
quanto às tergiversações iranianas em
relação ao seu programa nuclear. Embora
tal posição angarie simpatia no mundo em
desenvolvimento, é improvável que deixe
de ser registrada como pouco cooperativa
por boa parte dos membros permanentes do
conselho. Será postura prudente para um
postulante crônico ao Conselho de
Segurança expandido?
A posição do Brasil em relação ao
programa nuclear iraniano e a
insistência em criar relação especial
com Teerã - outra "parceria
estratégica"? -, além de não serem
justificadas por interesses prioritários
aparentes do Brasil, acarretam fricções
com parceiros importantes, notavelmente
os Estados Unidos. É um caso em que
objetivos políticos estão dificultando a
obtenção de resultados econômicos
concretos.
O País deveria concentrar o uso de seu
cacife limitado - bazófias à parte -
para alcançar objetivos de interesse
inequívoco, como a eliminação dos
subsídios norte-americanos ao algodão
por meio da imposição de retaliações aos
Estados Unidos, de acordo com as regras
da Organização Mundial do Comércio
(OMC).
A política externa brasileira tem
produzido resultados concretos modestos
e não está definindo adequadamente as
suas prioridades. Há sempre o perigo de
que a atual administração, consciente da
ausência de resultados permanentes de
sua atuação, costure às pressas um
acordo insatisfatório com a União
Europeia. A posição brasileira de "demandeur"
agrícola não deve ser sacrificada, ao
apagar das luzes, por tentativas de
remendo de erros do passado.
*Marcelo de Paiva Abreu, Ph.D. em
Economia pela Universidade de Cambridge,
é professor titular no Departamento de
Economia da PUC-Rio
Fonte: estadao.com.br